domingo, 22 de abril de 2012

PARA ONDE VAI?

O BARQUINHO - Óleo sobre tela 50 x 70 cm
Para onde vai? 
Com essas cores serenas
Deslizando e tendo ao fundo o céu azul celeste
E as montanhas branco de zinco
Em que as águas verde-esmeralda rodeiam
O barquinho humilde sépia e rosa orquídea ?

Para onde vai?
Parece ser em direção à vegetação verde inglês e verde vessiê
Com sua roupa preta humilde e surrada
Para onde vai ?
Com o chapéu de palha ocre que lhe protege do sol?
Para onde vai com os velhos remos terra de sombra natural
Que batem serenamente nas águas de cores claras

com pequenas ondas branco de titânio?
Sem pressa, sem pensar
Navegando aos poucos, mas sem naufragar
E aos poucos chegando onde deveria estar.

Para onde vai?
Poderia me levar?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

NÃO FAZER NADA

Quem de-repente nunca se pegou em devaneios, com vontade de largar tudo (emprego, escola, marido, família) e ir para um lugar onde nada se faz?  Onde se pudesse viver uma vida diferente e tranquila?... Onde a única tarefa é a de contemplar o horizonte, a lua ou a natureza? E o único pensamento é nada pensar?...

Elsie Lessa  nos anos 1960 já expressava esse sentimento - o que pode ser visto em uma crônica intitulada "Gente" (As Melhores Crônicas Brasileiras, Objetiva, 2007):


"De repente, escolhemos a vida de alguém. Era essa que a gente queria. Naquela casa grande e branca, na rua quieta, na cidade pequena. [...]. Somos uma geração que perdeu o privilégio de não fazer nada, aquele doce não-fazer-nada que é a mansa hora do repouso, o embalo da rede na frescura de uma varanda.[...] Perdemos o abençoado tempo de perder tempo, de não fazer nada, a única hora em que a gente se sente viver."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Passeio à Infância

Lendo uma maravilhosa crônica de Rubem Braga é impossível deixar de lembrar da infância e das delícias que esses pensamentos trazem. É incrível que, independente da idade ou da época, é sempre bom lembrar dos tempos de criança, por isso essa crônica tem mais de 50 anos e ainda assim continua tão moderna...

Lembrei-me da minha infância nas Minas Gerais (Guaxupé), das raspas de panela de curau, da amarelinha, das queimadas, dos meus joelhos ralados, dos desfiles na Avenida, das visitas à casa da minha avó, do meu pai vestido de Papai Noel. Da Dola, uma negra com problemas mentais que perambulava pelas ruas com a sua boca sem dentes, sempre sorrindo.

Para nós, mulheres crescidas, que vivemos a infância em sua plenitude, trecho da crônica Passeio à Infância de Rubem Braga (Julho, 1945)"

"Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?"

Convido as mulheres crescidas a fazer essa viagem imaginária, nem que seja por alguns minutos e a encontrar essa menina interior.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A CASA (FILHO ÚNICO)

Quando escrevi a série de poesias "A CASA" me inspirei incialmente em uma família com três filhos: o primogênito (mais velho), o do meio e o mais novo (caçula).  A poesia FILHO ÚNICO veio no final.


 FILHO ÙNICO
Elaine Dias

Um pouco de tudo em um só
O certo, o errado, o meio
Protegido, oscilante, atirado
Acomodado
Sensível, comedido,
Entediante, engraçado
O pai, a mãe
Que podem proteger
Que podem cobrar
A avó inconformada: “Quanto mimo, onde esse menino vai parar?”
Crescido
Ainda mora com os pais
Tem seu quarto
Seu lugar

Sente falta do irmão
Tudo pode.
Que bom,
Nada seu,
Tudo meu.
Se casado, submisso,
A todos, esposa, pai, mãe
Família presente
Pode, não pode,
O peso a carregar
É só dele
Ninguém para dividir.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A CASA (FILHO MAIS VELHO)

Quando escrevi a série de poesias "A CASA" me inspirei incialmente em uma família com três filhos: o primogênito (mais velho), o do meio e o mais novo (caçula).  Não por acaso, no ano anterior, havia pintado uma tela chamada "Ciranda" que ilustrava exatamente uma família assim. A poesia FILHO ÚNICO veio no final.


 FILHO MAIS VELHO

Elaine Dias

Taciturno,
Pensativo,
Sob o peso da responsabilidade
Deve trabalhar
Liderar
Proteger
Decidir
Assimilar
Nas brigas, todos esperam sua reação
Nunca se sabe onde está sua emoção
Inteligente
Sutil,
Encantador,
Viril
Todos o olham como a esperar
Uma reação
Deve ter sempre algo a dizer
Suas palavras são sábias
Ou devem parecer ser
Bate o martelo
Não permite discussão
É cobrado pelo vaso quebrado
Do qual nem passou perto
“Por quê não viu o que aconteceu?”
Crescido,
Espera sempre mais
Cobra-se pelo que fez ou não fez
Nunca está em paz
De prontidão,
Deve segurar o próximo vaso que está a quebrar
Alerta,
Não dorme, está sempre a velar
Pensativo
Entre a alegria e o pesar
Espera-se dele as atitudes
A opinião
A razão
Nele, o fio condutor
Da moral, do certo, do legal
A balança entre o bem e o mal
A ação.




A CASA (FILHO DO MEIO)

Quando escrevi a série de poesias "A CASA" me inspirei incialmente em uma família com três filhos: o primogênito (mais velho), o do meio e o mais novo (caçula).  Não por acaso, no ano anterior, havia pintado uma tela chamada "Ciranda" que ilustrava exatamente uma família assim. A poesia FILHO ÚNICO veio no final.

FILHO DO MEIO

Ciranda
Óleo sobre tela
Procura um lugar
Entre o menor e o maior
Apazigua as desavenças
Tenta ficar bonito
Mais vistoso, mais inteligente como o maior
Tenta ficar mais ativo
Brinca de boneca como o menor
Quer passar batom, namorar,
Arrumar o cabelo, como o maior
Quer o carinho, a proteção e a inconseqüência do menor
Quer liderar como o maior
Quer simplesmente seguir e não se preocupar
Deixa-se levar
Como o menor
Ora a balança pende para um lado mai leve, mais ousado
Ora para o outro,
Mais crítico, mais pesado.
Como um pêndulo,
Crescido,
Permanece na adolescência
Entre o maior e o pequeno
O que fazer?
Oscilante,
Sem saber ao certo
Para onde vai pender
Está sempre procurando
Sem nunca encontrar
Como o dominó, pode cair quando se esbarra nele
Ou pode permanecer de pé quando  o caçula e o maior caem um de cada lado sobre ele.

A CASA (FILHO CAÇULA)

     Quando escrevi a série de poesias "A CASA" me inspirei incialmente em uma família com três filhos: o primogênito (mais velho), o do meio e o mais novo (caçula).  Não por acaso, no ano anterior, havia pintado uma tela chamada "Ciranda" que ilustrava exatamente uma família assim. A poesia FILHO ÚNICO veio no final.

FILHO CAÇULA


Brinca
Tripudia
Contesta
Sem hesitar
Apronta
Sem medo.
Encantador,
Leve,
Cantarola a música da escola
Desenha a família, o pai grande a mãe menor e ele pequenino, no meio, de mãos dadas.
Inconseqüente, sobe no banco, na mesa, na janela, no muro
“Menino, larga disso, pode se machucar”
Com aquela banguela característica da idade,
 ele sorri, com  a boca, os olhos, o corpo.
No joelho aquele curativo caindo,
Deixando exposto o resquício daquele último tombo na casa da avó.
E sai correndo para a próxima travessura
Pega a vassoura, faz um foguete
Ou voa no tapete mágico
E logo depois pousa no colo da mãe
Cansado
Está na hora de repousar
Corado, suado, machucado,
Ele dorme sem pensar
No que virá
Se amanhã chove, ou faz sol, nada vai mudar.
Joga seu corpo leve na água fria
Sem medo do resfriado
Sem saber a profundidade
Sem medir a força da correnteza
Simplesmente vai
Sorrindo, machucado,
Pequeno, infantil, alegre,
Protegido.
Crescido,
Empreendedor da vida,
Da natureza, assume os riscos
Porque não os conhece
Está sempre feliz
Porque se esquece
Das contas para pagar
Da luz para apagar
Da TV para desligar
Alguém sempre velará por ele.